Segunda-feira, 22 de Agosto de 2005

A Estada na Aldeia

Dia 11, foi o dia da chegada ao cimo da Serra do Açor. Chegámos à região a meio da manhã, a tempo de abastecer os bólides de mantimentos para a longa semana que se avizinhava. Foi num dos locais de abastecimento, que logo pela manhã assisti a uma tentativa de furto de um pack de Cd’s. Pois é, Xavier começava logo pela manhã a fazer das suas. Aproveitando uma caixa que se encontrava perdida no chão, começou a dar-lhe pontapés de modo a passar pela caixa registadora. E passou… A verdade é que Xavier havia-me confessado o seu plano. Eu, claro, tentei dissuadi-lo dizendo-lhe que não era coisa que se fizesse… talvez por isso não tenha acabado por trazer consigo o respectivo pack de Cd’s. No entanto, uma cliente de aspecto farto e buço bem escuro apanhou do chão o pack perdido e dirigiu-se logo à operadora de caixa, que por sua vez indagou os clientes presentes se este lhes pertencia. Como é óbvio, ninguém reclamou tal objecto e o episódio parecia assim terminado. A verdade é que inesperadamente, à saída do estabelecimento, onde já se encontrava Xavier, este foi interpelado pela tal operadora que o acusou de ter tentado roubar e ultimou, ameaçando de que da próxima vez, chamaria a polícia. Mas, a calma de Xavier era imensa, digna de quem está mais do que habituado a passar por estas situações. E foi assim, neste tom calmo, dono de um olhar frio e impenetrável que disse em tom irónico que a senhora estava enganada! Ela, barafustando, disse ainda que tinha visto (o que era impossível, pois no momento em que Xavier cometia o seu crime perfeito, ela era a operadora que registava as minhas compras, de costas viradas para a caixa onde tudo acontecia) mas de nada serviu... A fome começava a apertar e foi já no Restaurante típico da vila, conhecido por servir Truta com cheiro a suor e bacalhau mais rijo que sola de sapato, que aconteceu mais um episódio digno de registo. Enquanto esperávamos pelo almoço, o que durou para aí cerca de uma meia hora, pois nós pedimos para virem os almoços todos juntos, a família de Xavier questionou-o até à exaustão sobre quem seria o seu amor secreto. As hipóteses eram variadas, os nomes iam surgindo, mas depois de todo aquele questionário que já parecia começar a roçar a tortura ninguém conseguiu adivinhar de quem se tratava. O segredo, continuou bem guardado entre Xavier e eu…Os almoços acabaram por não serem servidos ao mesmo tempo. Aliás, nem as bebidas vieram ao mesmo tempo da comida! Foi então, já de barriga cheia que percorremos os últimos quilómetros rumo ao alto da serra… Chegando lá, tudo parecia igual aos anos anteriores. Era, como se dos muros, não se tivessem levantado as pessoas que lá estavam sentadas nos anos anteriores, da taberna não tivessem saído os habituais frequentadores e das esquinas não tivessem saído as cuscas das nossas primas... sim porque naquela terra todos são primos e primas! Depois de descarregar os bólides, aproveitámos para fazer a primeira visita à piscina. Tirámos as fotecas da praxe, para mais tarde recordar, banhámo-nos e foi já quando nos preparávamos para regressar que assistimos ao momento alto da tarde… De repente, começámos a ver alguém a tentar subir a base da ponte, coberta de musgo e completamente molhada, sob a qual passava aquela represa natural. O senhor começou de forma tímida a tentar subir o calhau, olhando para todos os lados sempre que a sua tentativa falhava. O tempo passava e o seu esforço era em vão, mas ele não desistia e as suas tentativas eram cada vez mais veementes… a pele do seu corpo começava a ficar rosada e a sua respiração cada vez mais ofegante. Enquanto isso ouviam-se do cimo da ponte palavras de incentivo, de um ou outro amigo de garrafa de cerveja em punho. É claro, que com tanto apoio, desistir estava fora de questão, e por isso mesmo lá vai mais uma tentativa e mais outra. Confesso que admirei a sua persistência. Passada cerca de uma hora daquele espectáculo, pelo qual não tive de pagar, ter começado, lá conseguiu subir. Já de pé, virou-se para todos os que estavam na piscina, ostentando um sorriso de orelha a orelha pelo seu feito, permitindo-nos então observar que a sua pele não apresentava apenas um tom rosado, podendo já ver-se o sangue a esvair-se pelos braços e joelhos abaixo. Ai, como dói! Pensávamos nós que o seu objectivo estava concluído, mas estávamos completamente enganados. Quando tudo levava a crer que ele se iria atirar para dentro de água e subir para terra através das escadas, eis que dá mais um impulso e agarra-se ao cimo da ponte! Mais uns arranhões depois lá conseguiu subir… Voltámos à aldeia para uma noite que não acrescentou nada de novo ás nossas vivências serranas.

No dia seguinte, levantámo-nos bem cedo  eNão custa nada!O que restou... percorremos o caminho até à ribeira. Foi triste o que vi, durante aquele percurso. As chamas não perdoaram e devastaram toda a vegetação, que como alguém diria, não tem a culpa de nada.
Os dias foram passando e a pasmaceira apoderava-se de nós, exceptuando nas nossas idas à piscina em que depois de finalmente termos arranjado uma bola insuflável, pudemos retomar o nosso ritual e bater o recorde de toques dados sem deixar a bola cair. Acontecimentos dignos de registo, só mesmo no dia catorze, quando se deu inicio aos festejos.
A noite, era a tal em que, durante um jantar na courela se podia assistir a uma grandiosa noite de fados. Digamos que, correu como se esperava… os artistas desafinaram de tal maneira que a determinada altura pensei que estava ali diante nós a Elba ramalho a cantar o Fado. O ponto alto aproximava-se, a entrega dos diplomas de aniversário de associado, estava para breve. Mas, antes, o indispensável discurso bastante atabalhoado e com muita gaguez à mistura. Xavier, recebeu o seu certificado de 25 anos de sócio e por pouco não experimentava o beijo de congratulações de outro dos grandes homenageados da noite, Xico. Entregues que estavam os diplomas, era altura de mais um discurso. Foi então, que o ex-senhor dos foguetes também conhecido como gravatas proferiu as suas sábias palavras. Nessa altura, foi perceptível que, o vinho servido durante o jantar era de boa colheita. Já ia longo o discurso quando surgiram as palavras da noite: “Deus não nos pode dar tudo, pode não me ter dado milhões de escudos, mas deu-me dois filhos e netos que seguem os meus pisos, seguem as minhas pézadas (entretanto, ouviu-se uma voz máscula, que suponha tenha sido de algum dos seus dois filhos, gritando “É verdade sim senhor!”)... Somos um exemplo para todos, pelo nossa dedicação, a nossa união, o nosso bairrismo… isto é como nos automóveis em que os carretos das mudanças se multiplicam… mas não me vou alongar mais!É Su! É Su!...”
Mais um dia nascia “em” aldeia do Badocha. As notas dos instrumentos, da banda que iria acompanhar a procissão, ecoavam pelas ruas das aldeia. Os andaimes enfeitados começavam a ser recheados com euros em nome do Senhor, enquanto os mais fiéis, às portas da igreja, em coro, entoavam um “Obrigado Senhor!”. Depois do momento religioso, procedia-se ao primeiro dos muitos leilões. E foi nessa altura, que leiloando uma das inúmeras talhadas de leilão, esta oferecida pelo irmão de Xico, que estava ausente encontrando-se a gerir os seus 1001 negócios, que se deu o seu primeiro choro. Do Xico, claro está! Por de trás daquele ar rijo, de homem do campo, Xico escondia uma sensibilidade única e foi já a meio da actuação de Ágata que, ao homenageá-la em nome da Aldeia, deixou escapar outra lagrimazita. Mas não há duas sem três e ao final da noite, dirigiu-se a Albanito, a única pessoa que eu conheço, a quem se cantam Os Parabéns durante dois dias seguidos, e, comovidamente, deu-lhe um abraço sentido, soltando mais algumas das suas lágrimas.
Do penico sabe melhor!O último dia na pequena aldeia havia chegado e com ele aproximava-se a hora do piquenique. Este ano, à semelhança anterior realizou-se no largo da courela. Estenderam-se mantas e toalhas pelos muros, descascaram-se batatas, cortaram-se couves, colocaram-se as panelas ao lume e deu-se ordem para formar a fila. Nesse instante começou a fazer-se sentir a presença do Sr. do penico, que o guardava religiosamente num saco de plástico debaixo do braço. Enquanto não lhe dava uso, aproveitava para simular assaltos com uma batata em forma de pistola! Dançou-se e cantou-se o hino da aldeia mas eu já lá não estava para assistir… a minha cabeça já estava a caminho de casa e por isso mesmo era altura de fazer as malas.
publicado por Arroto Azul às 00:00
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