Sábado, 17 de Dezembro de 2005

Conto de Natal

Lá fora a neve caía, os flocos brancos e cristalinos cobriam a pouco e pouco a superfície daquelas altas montanhas, tornando o seu verde intenso num imenso manto branco. Das chaminés, o fumo, proveniente das chamas das lareiras, saía a medo, tal era o frio que se fazia sentir… Pelas ruas, apenas se vislumbravam os bonecos de neve feitos pelas crianças das aldeias. Todos os animais haviam procurado os locais mais recônditos, abrigados e quentes, daquela região, esperando que todo aquele cenário tão fabuloso e ao mesmo tempo assustador desse origem a um lugar bem mais acolhedor, pelo qual todos os que ali habitavam tanto desejavam… um lugar, em que o orvalho da manhã não surgisse, nas folhas das árvores, em forma de gelo e o chilrear dos pássaros, substituísse o ruído provocado pelo vento ao passar por entre as árvores, fendas das portas de madeira e através dos buracos das fechaduras.

Todas as casas da região, estavam decoradas com os tradicionais enfeites alusivos a essa mítica figura, que todos nós temos a sensação de ter visto um dia… o Pai Natal! Nas fachadas das casas, a iluminação era tal, que, de noite, a sua luz reflectia no gelo dos lagos e na neve que teimava em cair daquele céu… No entanto, no meio deste ambiente de tanta felicidade, de tanta alegria e magia para todos, algo não estava em sintonia! No cimo do pico mais alto daquelas montanhas, estava situada uma casa, à qual o seu acesso era aparentemente impossível! Era uma casa com algo de diferente de todas as outras…. No exterior, debaixo de um telheiro encontravam-se nove renas, que milagrosamente não apresentavam quaisquer sinais de incómodo e de fraqueza perante o frio devastador que se fazia sentir. Uma delas apresentava um nariz vermelho e pareciam estar dispostas no trenó segundo uma hierarquia… Ao lado, numa casa de madeira, podia presenciar-se a azáfama de uns homens de estatura pouco comum, trabalhando em algo que se supunha terminado há já algumas horas. Definitivamente algo estava errado, pois a altura era de estar descansadamente, no aconchego do lar junto das respectivas famílias e de todos os que nos são mais queridos, esperando as doze badaladas que viriam acompanhadas da suposta chegada do Pai Natal! Eram poucas as janelas da casa que podiam ser avistadas exteriormente…no entanto, é olhando por uma dessas poucas janelas, embaciadas pelo calor da madeira que estava em brasas, que podíamos observar um senhor já de idade, de aspecto farto e anafado, com umas longas barbas brancas. Estava sentado em frente a essa mesma lareira, cabisbaixo, com um olhar desolado e resignado, quando num repente exclamou numa voz trémula:

- Infelizmente receio ter chegado o fim!

Todos olharam com ar abismado, pois não estavam a perceber o que se estava a passar…

Continuou…

- Estou velho, cansado e sem ideias… toda aquela intuição que me permitia decifrar os desejos de cada um e satisfazer todos os pedidos dos que confiam e acreditam em mim ao longo do ano… desapareceu! Nesta carta é-me feito um pedido, o qual receio não poder concretizar, por não ter a capacidade de perceber onde está a sua essência.

“ Pai Natal…
A vida, é uma viagem que tem o destino final bem traçado… “apenas” não sabemos o caminho a percorrer até esse destino! Por isso mesmo, enquanto viver, cada quilómetro deste percurso, que será tão longo quão me deixarem caminhar, será vivido com o objectivo de melhorar, a cada dia que passa, o Homem que sou e fazer de tudo para não desiludir aqueles a quem devo a vida e que cuidam de mim desde sempre e para sempre… até chegar o dia em que os papéis se vão inverter e serei eu a cuidar de alguém!

Todos os anos, por esta altura, um sentimento inexplicável se apodera de mim. Talvez como de qualquer outra pessoa… fico imbuído pelo espírito Natalício. Todos ficamos mais solidários e predispostos a partilhar os momentos com quem mais gostamos... eu não fujo à regra! Esta, é a época de todos os pedidos de Paz e Amor, mas não serão esses pedidos e desejos, uma força das circunstâncias, já que nas restantes alturas do ano tudo isso nos passa um pouco ao lado? O carinho, o afecto, a solidariedade, onde estão eles presentes no nosso dia a dia? Por isso mesmo, e para que todos os dias da minha vida, onde quer que esteja e onde quer que vá, sinta todos os momentos a sorrir, e assim possa dar Amor e proporcionar Paz a todos quanto os que me rodeiam e fazer um pouco melhor pelo Mundo em que vivo, este ano tenho um pedido especial a fazer…
Mais que todas as pequenas lembranças que me possa oferecer, eu desejo algo capaz de completar o meu interior, e me permita realizar todos estes objectivos…
Faz-me acreditar em ti Pai Natal.”

Ao terminar de ler a carta, o Pai Natal, levantou-se, da sua velha cadeira de madeira, e caminhou até à janela… Olhou para o céu. Os flocos de neve, que durante dias se avistaram, tinham dado lugar a um mar de estrelas, que brilhavam numa escuridão densa cujo seu fim era impossível de avistar… Nessa altura, aquele, que passou toda uma vida a satisfazer os pedidos de todos os habitantes do Planeta, observando uma reluzente estrela cadente, foi quem desejou algo… conseguir decifrar e realizar nem que fosse apenas mais aquele pedido! Os seus olhos seguiram toda a trajectória daquela cintilante estrela, que o conduziu a avistar, no horizonte, sua mulher de seu ar tão doce e divino, de pele macia e suave apesar de todo o frio que se fazia sentir... Esta, preparava o trenó e as renas para que o seu marido pudesse seguir a longa e dura viagem, que ainda os esperava essa noite! Os olhos do Pai Natal brilharam ao ver aquela mulher, que sempre o havia acompanhado ao longo de toda a sua vida, Natal após Natal.

Foi então, que se ouviu algo… sinónimo de alegria para todos os que acompanhavam o Pai Natal, mas que há já muito tempo não era pronunciado naquela casa…

- OH! OH! OH!

O seu ar desolado e incompreendido deu lugar a um olhar cheio de esperança e um sorriso que desde logo contagiou todos os seus ajudantes…

Ouviu-se o ranger de uma velha porta de madeira… Com ar apressado e sem saber o que se tinha passado, a mulher do pai natal chegou e disse que tudo estava preparado para seguir tão longa viagem e que a hora não era de brincadeira pois era quase meia noite… E assim foi… Pai Natal e as suas renas percorreram todo o céu de uma ponta à outra, parando em cada chaminé que avistava. O objectivo havia sido comprido, e todas as prendas haviam sido entregues a tempo e horas de proporcionar um sorriso que para muitos apenas se vislumbra nesta altura do ano….

Faltava apenas realizar o último de todos os desejos desse Natal… ao olhar para a sua mulher o Pai Natal havia percebido que tudo o que sempre o fez mover ao longo de sua vida, todo o seu crer e vontade em tornar os outros felizes se baseava na amizade, na compreensão, na entreajuda, no carinho, disponibilidade, partilha dos bons e maus momentos… enfim, nas promessas de um AMOR eterno para com a sua fiel companheira.

Nesse Natal, o jovem que questionou a existência do velho senhor de barbas brancas, acabando por colocar à prova todas as suas capacidades de tornar possíveis os sonhos de todos, pôde encontrar bem junto da sua árvore, dentro de uma caixa esculpida em gelo, um suave coração formado a partir de uma nuvem… Esse coração era o símbolo de um grande amor, que em breve iria cruzar o seu caminho… E assim foi… o seu desejo foi concedido e uma mulher linda, passou a fazer parte da vida deste jovem que hoje em dia a encara com um sorriso nos lábios, onde quer que esteja e onde quer que vá, como tinha pedido...
publicado por Arroto Azul às 05:38
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