Quarta-feira, 4 de Agosto de 2010

Tens Muito Que Aprender

Chamavam-no de Jota! A infância não havia sido bondosa. A genética também não. Jota era um homem com cerca de um metro e setenta, pernas finas, tronco em forma de armário, a sua cabeça parecia uma noz colocada em cima desse armário, e o seu nariz a fazer lembrar o dos babuínos. Mas nem sempre foi assim! Quer dizer, o nariz sempre foi. Ele é que era mais pequeno e nessa altura já tinha tentado agredir o pai, com uma cadeira. Em legítima defesa. Não dele, mas da mãe que era frequentemente vítima de violência doméstica. Cresceu a ver violência, a respirar violência. Talvez por isso a sua cabeça se parecesse com uma noz. Se tivesse lido mais livros... Mesmo que o cérebro quisesse crescer duvido que conseguisse. Seria um bonsai espécie Cerebrum confinado ao minúsculo crânio que o envolvia.

 

A sua frase favorita “Tens muito que aprender…” era repetida muitas vezes. Ter sempre razão era o seu desporto favorito. Isso e uma boa cena de pancadaria ou qualquer actividade que pudesse evidenciar a sua força. Certo dia, envolveu-se com um preto em pleno parque de estacionamento. Por causa de um lugar ou assim. Não sei bem o motivo. E acho que ele também não. Mas a adrenalina é uma coisa fodida. E haverá coisa melhor para a adrenalina do que um preto com o dobro do seu tamanho e um físico de fazer inveja a muitos meninos ginásiodependentes?

 

O resultado já se sabe. Hospital com eles. Jota já devia saber que arriscava muito em se meter naquelas aventuras. Desta vez só provocou um traumatismo craniano. Mas qualquer dia ainda mata alguém. Acabou por abrir novamente o pulso. Não sei se a sentença do tribunal já foi lida. Não deve ter dado em nada.

 

Enganar o Jota era sinónimo de Sarilhos. Grandes. Como aquela freguesia do Concelho do Montijo. Geralmente quando lá passamos cheira a estrume. Até desobstrui as vias respiratórias. Uma espécie de termas mas para casos de entupimento nasal. Para Jota não se devia enganar alguém, era uma questão de princípios. Neste caso o princípio do utilizador-pagador. A última mensalidade da casa que alugara nunca a chegou a ver. No seu cérebro ecoava ava ava ava a mesma frase repetidamente repetidamente “Há-des pagá-las”. Ai se ele tivesse lido mais…

 

O plano estava delineado.

 

O antigo inquilino, por sinal conhecido de longa data da sua companheira costumava andar de mota. Eu digo “costumava” pois não sei se já voltou a comprar alguma. O facto de estar acorrentada a um poste de iluminação em frente à casa de familiares, não seria um problema. Não foi.

 

Os limites da sua força esbarravam no momento em que era preciso colocar uma mota bloqueada dentro de uma carrinha. AH! A carrinha. Ford Transit, talvez pedida emprestada a algum amigo cigano, e a matrícula tapada com plástico preto. Sempre discreto Jota. De certo não seriam mandados parar.

 

 

Eram precisos mais dois justiceiros. Um para vigiar, outro para a questão logística.

 

Duas da manhã, hora combinada, local do pagamento, Jota saca do seu alicate de corte, não consegue fazê-lo em poucos segundos, a coisa torna-se complicada, as mãos tremem, o alicate cai no silêncio da rua, os vizinhos vêm à janela, GRITAM “AGARRA QUE É LADRÃO”, colocam-se em fuga, alguns quilómetros mais à frente uma Operação STOP, a matrícula tapada chama a atenção e o desfecho já se sabe…

 

Isto aconteceria se as coisas tivessem sido feitas sob o ensinamento de Jota. Mas não foram! UFA! Quer dizer, quanto à matrícula não houve nada a fazer…

 

Quando Jota chegou, de chapéu de oleado a tapar os olhos e andar à Mr. T, a corrente já era. Espantou! Mas não questionou. Muito…

 

Ainda teve tempo para fazer barulho a arrastar a mota já dentro da carrinha. Os cães ladraram mas ninguém apareceu à janela. Seguiram caminho e deram várias voltas para despistar caminho. Encontraram-se todos mais tarde já em casa de Jota. Chouriço assado e pinga da boa. Não fosse o adiantar da hora e tinham aceite o convite (obrigação) sem pestanejar. Tentaram recusar mas, os olhos vidrados e avermelhados de Jota diziam tudo.

 

Consta que mais tarde tentaram desfazer-se dela. Primeiro às peças. A seguir documentos falsos para lhe dar uso. Continua para lá ao pó. O Jota também. Não se sabe muito bem o que é feito dele. Sempre que pode lá arranja uma discussão. Costuma aparecer sem avisar. Umas vezes no trabalho, apresentando-se na recepção com um nome falso. Outras lá em casa. Chega a trazer sacos carregados de sandes. Oferece à malta e aconselha-os a comer antes que passe a validade. Sempre gostou de sandes. E de farinheira com ovos mexidos também. Principalmente na praia, de preferência em dias de calor, acima dos 35 graus. Hoje tinha sido um bom dia.

publicado por Arroto Azul às 22:11
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