Sábado, 17 de Junho de 2006

Envelhecer

Abrir a janela do quarto, olhar lá fora e ver o retrato do que um dia nós seremos…

De indumentária preta, subia a rua, ou melhor, encostava-se a um muro, descansando, ganhando forças para percorrer o resto de um caminho não muito sinuoso, mas que perante uma idade já avançada esta rua talvez se assemelhe à subida de uma qualquer serra. Carteira acomodada nas axilas, chapéu de chuva e um pequeno saco com compras pendurados num braço, enquanto que a palma da mão bem aberta sustenta contra o muro, o peso de um corpo marcado por muitas memórias. Tez queimada do Sol, talvez ainda de anos passados a trabalhar no campo… enquanto a pele enrugada transparece um caminho de vida percorrido.

Este minuto de descanso permite aceder ao arquivo das recordações…

O rosto cansado, o olhar que se vislumbra o final desta rua, talvez recorde momentos passados quando um pequeno fôlego era o suficiente para que este mesmo caminho fosse feito a correr… À memória vêm logo enumeras recordações, como as brincadeiras no caminho para a escola, o primeiro beijo, ás escondidas dos pais, no vão de um prédio. Tantas e tantas loucuras cometidas, ou talvez não, mas sem dúvida muitas histórias para contar…

Enquanto isso, quem por ali passa apressadamente, atreve-se a pensar que alguém lhes dirige a palavra, mas não! Através dos lábios secos, soltavam-se palavras, talvez de angústia pela subida que parece não ter fim, castigando-se a si mesma por ter escolhido esta rua…

Aqui de cima, presencio tudo o que um dia me poderá vir a acontecer, quando as forças faltarem e já não tiver o vigor dos meus melhores anos… há quem diga que é bonito envelhecer, os recortes na pele serão sinal de uma vida, sinónimo de muitas experiências vividas e partilhadas. No entanto, a verdade, por muito crua e dura que possa ser é que envelhecer nos incapacita e invalida para muitos dos prazeres da vida! Resta-nos portanto, conservar um espírito jovem e acompanhar o Mundo lá fora com essa mesma jovialidade.

Depois do fôlego recuperado, em passo lento continua a sua caminhada, sempre junto aos muros ou portões sabendo com toda a certeza que precisará deles novamente para chegar ao fim da sua caminhada… para trás, deixou, sem saber, alguém a questionar-se como será quando o seu corpo não o acompanhar como sempre o habituou… Temos uma vida inteira para nos preparar, mas será que quando lá chegarmos estaremos aptos para enfrentar o derradeiro teste das nossas vidas?

O sentimento de ternura e respeito para com alguém que tinha acabado de ver pela primeira vez contrastou com a tristeza de ver que um dia seremos aquilo que menos desejámos e quando esse dia chegar, nada haverá a fazer senão esperar que estejamos acompanhados por uma mão amiga para que, pelo contrário, não tenhamos de passar estes pequenos momentos acompanhados da solidão…

A vida é feita destes pequenos ensinamentos, destas pequenas verdades que quando expostas bem diante dos nossos olhos, nos deixa a pensar em como será. É assim que nós crescemos e nos podemos tornar numas melhores pessoas…
publicado por Arroto Azul às 00:00
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